Carta para minha mãe - Continuando a aturar

Obviamente não morri. Quer dizer, não no sentido físico, mas partes de mim se foram pra sempre e outras surgiram. 

Daquelas fases do luto de que muito se fala, a negação e a raiva foram as mais persistentes. Não sei se você me observou de onde está, mas eu gritava com você, te culpava pela minha dor e me machucava pra que você entendesse o mal que me fez e sofresse junto. Sim, você me deixou, sozinha e com uma dor insuportável, dor esta que você havia experienciado apenas três meses antes. Eu tinha só 20 anos e tinha que me virar sem você, com 3 gatas, morando só, tendo que terminar uma faculdade e sentindo a pior dor que já pude conceber na vida. Isso não foi justo e só de lembrar a raiva volta. 

Por que as outras pessoas podem ter suas mães por tanto tempo e eu tive que te perder? 

Por que eu tive que amadurecer tão rápido?

Por que eu não tive coragem de acabar logo com tudo???

Ao contrário de você, eu pensei nas minhas responsabilidades: as gatas. Por elas, e apenas por elas, eu precisava "aturar essa vida de merda". 

Essa pensamento e os anos de terapia e dor me fizeram enxergar que minha vida só existia e só tinha sentido se fosse pra proporcionar algo pra você. Eu não sabia como era viver de outra forma. E já que você morreu, o que restava? 

Me apeguei no que pude pra não enlouquecer de vez. As gatas, o término da faculdade e só. Sem isso eu não passava de um invólucro vazio. Quando tudo isso passasse, eu sabia que não me restaria mais nada que dependesse de mim e aí eu estaria livre e motivada a acabar com tudo de uma vez.  

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